A nova casa do conteúdo e da forma

2009 maio 27
Comentários desativados
por Danilo Sanches

É um orgulho ter essa audiência no blog. Uma grande conquista, antes de tudo. E é com essa felicidade que lhes apresento um novo projeto, que une os dois blogs para os quais escrevo. Agora, Francazona e Crônicos & Agudos atendem pelo nome de danilosanches.com.br. A nova casa, além de reunir todos os textos contidos nos dois blogs, traz novidades e um visual mais aconchegante. Nada como ter o próprio domínio para ter acesso aos vários recursos disponíveis para um site.

Gostaria muito de contar com sua audiência na nova casa. Vai ser mais cômodo e tão agradável quanto. Acredite.

Abraço,

Danilo Sanches

Impunidade é planfleto, no Brasil há um paradigma

2009 março 25
por Danilo Sanches

No Brasil não existe impunidade. É uma questão de jurisprudência, de paradigma. E só. A justiça tarda, falha, mas só age quando os réus são pobres e, inexoravelmente, desconhecem seus direitos e não têm bons advogados. Para bons advogados, entenda-se advogados com extensos currículos na defesa de grandes bandidos.

No último sábado, 21, quatro jovens entre 24 e 31 anos pegaram seus carros e foram passear na rodovia Washington Luís. Não fosse pelo sobrenome de dois dos jovens, irmãos, seria apenas mais um passeio de amigos da classe abastada, abarrotada, glutona e pegajosa deste país que se arrasta e não provê o mínimo aos seus.

O fato de os quatro garotos, entre eles dois sobrinhos do ex-banqueiro italiano Salvatore Cacciola — preso em 2008 —, terem pego seus carros e dirigido imprudentemente, segundo a polícia rodoviária, a mais de 200Km/h e um deles batido numa Kombi, placa LTA0264 — cujo dono sequer teve a glória de sair em uma linha das reportagens que cobriram o caso —, não significa nada. Os quatro jovens foram detidos em flagrante, recusaram-se a prestar depoimento e foram embora. Vão aguardar em liberdade uma audiência marcada para o longínquo 8 de maio.

O tio de dois dos garotos, que dirigiam um Porsche Cayman e um Audi S5, foi preso por peculato e gestão fraudulenta de instituição financeira — o banco Marka. Salvatore foi condenado a treze anos de prisão, mas foi encaminhado ao cárcere sem algemas, pois sabia de seus direitos. E por ter um bom advogado, tenta colocar a justiça em contradição tanto quanto possa. Mas segue preso, dez anos depois de cometer os crimes.

Quem pode, vai continuar podendo. E quem nunca pôde, segue se conformando.

Medo e dominação; estamos sitiados?

2009 março 16
por Danilo Sanches

Manter uma sociedade assustada é a melhor forma de dominá-la. Alguém deve ter dito isso, ouve-se pelas esquinas da Internet, nesse ou naquele texto sobre crítica de mídia, crítica política. Mas é desesperador quando o produto do medo bate à nossa porta, cutuca a nossa mente sobre coisas que deveriam ser feitas no dia a dia e não são. Como bloquear o ciclo vicioso do medo, por exemplo.

O fato do avião que caiu no shopping em Goiânia foi exaustivamente repercutido e a sensação de relevância foi devidamente incutida no público através da repetição e do agendamento da mídia pela própria mídia. Quer dizer, se todos os jornais deram, é importante; se meu concorrente cobriu, tenho que cobrir a tal notícia.

Então quando acontece com a gente é que a coisa fica mais visível. Estava no ponto do ônibus no sábado à noite, quando se aproximou uma velhinha, nitidamente aflita e puxou papo. Me perguntou o protocolar e em seguida ergueu os olhos e soltou o motivo da aflição.

Naquela hora passava um avião sobre a região onde estávamos. Aquela é a rota dos aviões que saem de Congonhas. E a senhora me disse que aquele avião estava voando em círculos e que estava preocupada.

De fato, numa perspectiva prática, o medo daquela senhora a respeito de aviões não implica na dominação da qual falava anteriormente. Mas reflete o quanto isso está arraigado.

No final do ano passado, me lembro de ter lido sobre uma pesquisa que dizia que cientistas americanos conseguiram isolar o gene do medo. Que o medo e a associação das pessoas às lembranças ruins era definido geneticamente. Quanto absurdo! De fato, algumas características podem ser genéticas — alguns tipos específicos de sinapses —, mas atribuir à biologia um comportamento estritamente sociológico é tentar dissuadir-nos do que constatamos com os olhos.

Diariamente somos bombardeados por ordens que nos encurralam num padrão de vida que nos dá apenas uma opção: seguir. Assustados seguimos melhor às ordens.

Esposa de prefeito cassado é eleita no RN

2009 março 1
por Danilo Sanches

Sete municípios brasileiros elegeram novos prefeitos hoje, após determinação do TRE. Os processos de impugnação de candidatura aconteceram em bem mais que sete municípios, mas dizem que assim faz a justiça: tarda mas não falha.

A cidade de Jundiaí, interior de São Paulo, teve seu capítulo nessa novela com 7 processos de cassação da candidatura do prefeito eleito Miguel Haddad (PSDB). Entre os processos, consta acusação de abuso de poder econômico. A boa e velha compra de votos. As eleições em Jundiaí não foram reconvocadas, apesar de muito anunciadas e revogadas.

Em Jundiaí o caso é outro, o partido do prefeito está no poder há quatro gestões. Dificilmente vão retirá-lo de lá, apesar da dificuldade em vencer esse último pleito, com diferença menor que 1% dos votos válidos.

Curioso mesmo foi o que ocorreu na cidade de Patu, interior do Rio Grande do Norte, que dista 300 Km da capital do estado, Natal. O prefeito eleito, Ednardo Moura (PSB), foi mesmo cassado por problemas com o Tribunal de Contas da União. Novas eleições apuradas neste dia 1 de março levaram Evilásia Gildênia de Oliveira (PSB) ao poder com 290 votos de diferença do segundo colocado. Esqueci de mencionar: Evilásia é esposa do prefeito cassado.

O blog de um morador da cidade noticiou que durante o pleito em Patu, quatro pessoas foram presas. Uma delas, Evandro Moura, coincidentemente com o mesmo sobrenome do prefeito cassado, comprava votos para a candidata do PSB. As outras três foram presas por vender seus votos a Evandro.

O limbo ético em que se encontra a política nacional invalida até as tentativas mais nobres de estabelecimento da transparência. A cegueira da população se soma à certeza de impunidade dos criminosos.

A impressão é de que os que poderiam criticar essa situação de maneira mais qualificada — os políticos dos partidos ditos de esquerda — ou não sabem o que fazer ou se fazem de desentendidos.

Conversei, no último dia 28 de fevereiro, com o ex-candidato à prefeitura de Jundiaí, Gerson Sartori (PT) a respeito dos processos contra o atual prefeito, Miguel Haddad. Sartori me disse que acredita que Haddad deixe o cargo ainda este ano e citou as novas eleições que aconteceriam em sete cidades do país como prova da efetividade do papel do TRE. Esqueceu-se que o prefeito de Patu pertencia a uma coligação na qual o PT, partido de Sartori, fazia parte e se manteve apoiando mesmo após a cassação.

Ou é o império da falta de senso apoiado pela apatia popular, ou estou anacrônico e deslocado me indignando por esporte.

Francazona Podcast #1

2009 março 1
por Danilo Sanches

A idéia de fazer um Podcast me deixou muito empolgado. Acabei fazendo algo que é um misto do que tenho ouvido. De qualquer forma, mesmo que não seja a versão definitiva do programa Francazona Podcast, está no ar o número 1.

Nesta edição trouxe uma reflexão sobre alguns problemas dos movimentos de esquerda. A idéia parte de um panfleto distribuído na USP sobre uma paralização feita antes do início das aulas. Cheio de contradições e apontando para o lugar-comum de sempre. Será que me tornei um reacionário?

Divirtam-se. Espero que gostem.

Download: Francazona podcast #1
Duração: 21 min
Tamanho: 19 MB
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Festa da demência consentida

2009 fevereiro 27
por Danilo Sanches

O grotesco é nossa companhia mais cara nesse fluxo que empurra a vida para o fim da primeira década do século vinteum. Esses últimos fatos dos trotes violentos, em especial o da Faculdade de Santa Fé do Sul, retratam o retardo mental, senão a displicência patológica com que os jovens lidam com a realidade.

O que será que aconteceu? Será que a culpa é dos pais que encheram de excesso (sic) de zelo os pimpolhos e nesse meio esqueceram de contar que, no mundo, é preciso responsabilidade? Pra balancear a liberdade que eles, na sua juventude sufocada pelo regime, tanto fetichizaram. Porque boa educação não é sinônimo de repressão ou de agruras desde a primeira infância. Valor é convivência.

Ou será o inchamento da classe média, impulsionado pelas privatizações dos anos 90 — que na mesma medida afundou os pobres na miséria? Esse inchamento e consequente deslumbramento do novoriquismo, bem como a jornada de trabalho fora de casa assumida também pela mãe, pode ter desviado a atenção dos principais formadores de caráter: os pais.

Mas o fato é que a mocinha, a estudante de pedagogia — só para apimentar a piada pronta — que jogou o tal produto químico na caloura, declarou nesta sexta-feira (27), que a aluna, que estava grávida, atingida e queimada nas costas, braço e pernas, exagerou. Que não precisava ter provocado tanto alarde na imprensa, afinal nesse mesmo início de ano houve casos piores como o do rapaz que entrou em coma por causa da violência do trote.

A violência sequer é posta em questão. Quer dizer que é algo introjetado, algo assumido pela estudante, que representa grande parcela dos jovens. Ano a ano notícias como esta ocupam a pauta dos jornais no início das aulas. Nas redações o assunto já deve ser pauta agendada. “Quem morreu esse ano no trote?”.

No fim das contas, o que devemos acreditar é que fazem por gosto. Pois se assumiram a violência como algo plausível e passível de atenuantes, o que varia é só a forma. E para essa demência consentida, que se faça entender, ainda que tardiamente, que há de cessar.

Camisinha é novamente expulsa da igreja

2009 fevereiro 26

Implacável na rejeição de medidas pró-redução de danos, a igreja acaba de expulsar um padre por defender o uso da camisinha. Nem dispersou o cheiro de álcool do carnaval e o arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pregotto, deu cabo da função sacristã do padre e deputado federal (PT-PB), Luiz Couto, que além do preservativo, defendeu em entrevista a não discriminação de homossexuais. Os incautos não fazem questão da ligação carnaval/álcool/sexo com o alto índice de abortos clandestinos. A média nacional é de um milhão de abortos ilegais por ano.

O argumento católico é claro: camisinha é estímulo ou conivência ao sexo promíscuo. Mas fora do campo da moral, sexo é necessidade fisiológica e compõe a base da pirâmide de Maslow junto com a necessidade de saciar a sede e de se alimentar. E atribuir à propaganda da camisinha o incentivo à promiscuidade é o mesmo que dizer que o uso de copos descartáveis incentiva as pessoas a beberem água.

É intrínseco ao pensamento religioso, no entanto, esse tipo de associação equivocada, avaliando pelo viés moral demandas práticas e comportamentos sociais que transcendem o que é apregoado por eles. O grande problema é que a igreja tem ação massiva pelo canal da culpa inclusive nas pessoas que pulam carnaval com sexo. Ou seja, se a restrição se aplicasse de maneira localizada às pessoas que se consideram moralmente superiores e não se envolvem em sexo promíscuo, seriamos um bom rebanho. Mas, de fato, não somos.

A expulsão do padre Luiz Couto é mais uma punição exemplar para quem tenta desafiar o Tribunal da Santa Sé, a exemplo de Leonardo Boff e congregados. Não se trata só do atraso mental e da cegueira aguda para problemas além-eucaristia, mas de um atentado à saúde pública.