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Reabrindo a lojinha

02/04/2013

Caro Danilo de 2009,

você deixou isso aqui impecável, meu garoto. Nunca pensei que fosse olhar seus textos e sentir orgulho como senti hoje, que resolvi rever essa bodega. Claro que o Obama já está no segundo mandato, não só a portabilidade numérica chegou ao DDD 011, como agora temos um dígito a mais. É, menino, o mundo mudou bastante nesses quatro anos.

Orkut, por exemplo, é palavra proibida. Agora é Social Media. Vai vendo. Nós, daqui do futuro, temos o Twitter, o Facebook, o LinkedIn e o Marco Feliciano.

Na verdade, Danilo, o futuro é bem mais desinteressante do que você imaginava. Mas você era jovem demais para supor isso. Eu, aqui do futuro, te ajudei numas coisinhas e criei um blog pras tuas crônicas, fiz os amigos novos mais incríveis do mundo e mantive as suas melhores amizades de sempre.

Ah… obrigado. Sem você, não ia dar pra mim.

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Impunidade é planfleto, no Brasil há um paradigma

25/03/2009

No Brasil não existe impunidade. É uma questão de jurisprudência, de paradigma. E só. A justiça tarda, falha, mas só age quando os réus são pobres e, inexoravelmente, desconhecem seus direitos e não têm bons advogados. Para bons advogados, entenda-se advogados com extensos currículos na defesa de grandes bandidos.

No último sábado, 21, quatro jovens entre 24 e 31 anos pegaram seus carros e foram passear na rodovia Washington Luís. Não fosse pelo sobrenome de dois dos jovens, irmãos, seria apenas mais um passeio de amigos da classe abastada, abarrotada, glutona e pegajosa deste país que se arrasta e não provê o mínimo aos seus.

O fato de os quatro garotos, entre eles dois sobrinhos do ex-banqueiro italiano Salvatore Cacciola — preso em 2008 —, terem pego seus carros e dirigido imprudentemente, segundo a polícia rodoviária, a mais de 200Km/h e um deles batido numa Kombi, placa LTA0264 — cujo dono sequer teve a glória de sair em uma linha das reportagens que cobriram o caso —, não significa nada. Os quatro jovens foram detidos em flagrante, recusaram-se a prestar depoimento e foram embora. Vão aguardar em liberdade uma audiência marcada para o longínquo 8 de maio.

O tio de dois dos garotos, que dirigiam um Porsche Cayman e um Audi S5, foi preso por peculato e gestão fraudulenta de instituição financeira — o banco Marka. Salvatore foi condenado a treze anos de prisão, mas foi encaminhado ao cárcere sem algemas, pois sabia de seus direitos. E por ter um bom advogado, tenta colocar a justiça em contradição tanto quanto possa. Mas segue preso, dez anos depois de cometer os crimes.

Quem pode, vai continuar podendo. E quem nunca pôde, segue se conformando.

Medo e dominação; estamos sitiados?

16/03/2009

Manter uma sociedade assustada é a melhor forma de dominá-la. Alguém deve ter dito isso, ouve-se pelas esquinas da Internet, nesse ou naquele texto sobre crítica de mídia, crítica política. Mas é desesperador quando o produto do medo bate à nossa porta, cutuca a nossa mente sobre coisas que deveriam ser feitas no dia a dia e não são. Como bloquear o ciclo vicioso do medo, por exemplo.

O fato do avião que caiu no shopping em Goiânia foi exaustivamente repercutido e a sensação de relevância foi devidamente incutida no público através da repetição e do agendamento da mídia pela própria mídia. Quer dizer, se todos os jornais deram, é importante; se meu concorrente cobriu, tenho que cobrir a tal notícia.

Então quando acontece com a gente é que a coisa fica mais visível. Estava no ponto do ônibus no sábado à noite, quando se aproximou uma velhinha, nitidamente aflita e puxou papo. Me perguntou o protocolar e em seguida ergueu os olhos e soltou o motivo da aflição.

Naquela hora passava um avião sobre a região onde estávamos. Aquela é a rota dos aviões que saem de Congonhas. E a senhora me disse que aquele avião estava voando em círculos e que estava preocupada.

De fato, numa perspectiva prática, o medo daquela senhora a respeito de aviões não implica na dominação da qual falava anteriormente. Mas reflete o quanto isso está arraigado.

No final do ano passado, me lembro de ter lido sobre uma pesquisa que dizia que cientistas americanos conseguiram isolar o gene do medo. Que o medo e a associação das pessoas às lembranças ruins era definido geneticamente. Quanto absurdo! De fato, algumas características podem ser genéticas — alguns tipos específicos de sinapses —, mas atribuir à biologia um comportamento estritamente sociológico é tentar dissuadir-nos do que constatamos com os olhos.

Diariamente somos bombardeados por ordens que nos encurralam num padrão de vida que nos dá apenas uma opção: seguir. Assustados seguimos melhor às ordens.

Esposa de prefeito cassado é eleita no RN

01/03/2009

Sete municípios brasileiros elegeram novos prefeitos hoje, após determinação do TRE. Os processos de impugnação de candidatura aconteceram em bem mais que sete municípios, mas dizem que assim faz a justiça: tarda mas não falha.

A cidade de Jundiaí, interior de São Paulo, teve seu capítulo nessa novela com 7 processos de cassação da candidatura do prefeito eleito Miguel Haddad (PSDB). Entre os processos, consta acusação de abuso de poder econômico. A boa e velha compra de votos. As eleições em Jundiaí não foram reconvocadas, apesar de muito anunciadas e revogadas.

Em Jundiaí o caso é outro, o partido do prefeito está no poder há quatro gestões. Dificilmente vão retirá-lo de lá, apesar da dificuldade em vencer esse último pleito, com diferença menor que 1% dos votos válidos.

Curioso mesmo foi o que ocorreu na cidade de Patu, interior do Rio Grande do Norte, que dista 300 Km da capital do estado, Natal. O prefeito eleito, Ednardo Moura (PSB), foi mesmo cassado por problemas com o Tribunal de Contas da União. Novas eleições apuradas neste dia 1 de março levaram Evilásia Gildênia de Oliveira (PSB) ao poder com 290 votos de diferença do segundo colocado. Esqueci de mencionar: Evilásia é esposa do prefeito cassado.

O blog de um morador da cidade noticiou que durante o pleito em Patu, quatro pessoas foram presas. Uma delas, Evandro Moura, coincidentemente com o mesmo sobrenome do prefeito cassado, comprava votos para a candidata do PSB. As outras três foram presas por vender seus votos a Evandro.

O limbo ético em que se encontra a política nacional invalida até as tentativas mais nobres de estabelecimento da transparência. A cegueira da população se soma à certeza de impunidade dos criminosos.

A impressão é de que os que poderiam criticar essa situação de maneira mais qualificada — os políticos dos partidos ditos de esquerda — ou não sabem o que fazer ou se fazem de desentendidos.

Conversei, no último dia 28 de fevereiro, com o ex-candidato à prefeitura de Jundiaí, Gerson Sartori (PT) a respeito dos processos contra o atual prefeito, Miguel Haddad. Sartori me disse que acredita que Haddad deixe o cargo ainda este ano e citou as novas eleições que aconteceriam em sete cidades do país como prova da efetividade do papel do TRE. Esqueceu-se que o prefeito de Patu pertencia a uma coligação na qual o PT, partido de Sartori, fazia parte e se manteve apoiando mesmo após a cassação.

Ou é o império da falta de senso apoiado pela apatia popular, ou estou anacrônico e deslocado me indignando por esporte.

Francazona Podcast #1

01/03/2009

A idéia de fazer um Podcast me deixou muito empolgado. Acabei fazendo algo que é um misto do que tenho ouvido. De qualquer forma, mesmo que não seja a versão definitiva do programa Francazona Podcast, está no ar o número 1.

Nesta edição trouxe uma reflexão sobre alguns problemas dos movimentos de esquerda. A idéia parte de um panfleto distribuído na USP sobre uma paralização feita antes do início das aulas. Cheio de contradições e apontando para o lugar-comum de sempre. Será que me tornei um reacionário?

Divirtam-se. Espero que gostem.

Download: Francazona podcast #1
Duração: 21 min
Tamanho: 19 MB
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Festa da demência consentida

27/02/2009

O grotesco é nossa companhia mais cara nesse fluxo que empurra a vida para o fim da primeira década do século vinteum. Esses últimos fatos dos trotes violentos, em especial o da Faculdade de Santa Fé do Sul, retratam o retardo mental, senão a displicência patológica com que os jovens lidam com a realidade.

O que será que aconteceu? Será que a culpa é dos pais que encheram de excesso (sic) de zelo os pimpolhos e nesse meio esqueceram de contar que, no mundo, é preciso responsabilidade? Pra balancear a liberdade que eles, na sua juventude sufocada pelo regime, tanto fetichizaram. Porque boa educação não é sinônimo de repressão ou de agruras desde a primeira infância. Valor é convivência.

Ou será o inchamento da classe média, impulsionado pelas privatizações dos anos 90 — que na mesma medida afundou os pobres na miséria? Esse inchamento e consequente deslumbramento do novoriquismo, bem como a jornada de trabalho fora de casa assumida também pela mãe, pode ter desviado a atenção dos principais formadores de caráter: os pais.

Mas o fato é que a mocinha, a estudante de pedagogia — só para apimentar a piada pronta — que jogou o tal produto químico na caloura, declarou nesta sexta-feira (27), que a aluna, que estava grávida, atingida e queimada nas costas, braço e pernas, exagerou. Que não precisava ter provocado tanto alarde na imprensa, afinal nesse mesmo início de ano houve casos piores como o do rapaz que entrou em coma por causa da violência do trote.

A violência sequer é posta em questão. Quer dizer que é algo introjetado, algo assumido pela estudante, que representa grande parcela dos jovens. Ano a ano notícias como esta ocupam a pauta dos jornais no início das aulas. Nas redações o assunto já deve ser pauta agendada. “Quem morreu esse ano no trote?”.

No fim das contas, o que devemos acreditar é que fazem por gosto. Pois se assumiram a violência como algo plausível e passível de atenuantes, o que varia é só a forma. E para essa demência consentida, que se faça entender, ainda que tardiamente, que há de cessar.

Camisinha é novamente expulsa da igreja

26/02/2009

Implacável na rejeição de medidas pró-redução de danos, a igreja acaba de expulsar um padre por defender o uso da camisinha. Nem dispersou o cheiro de álcool do carnaval e o arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pregotto, deu cabo da função sacristã do padre e deputado federal (PT-PB), Luiz Couto, que além do preservativo, defendeu em entrevista a não discriminação de homossexuais. Os incautos não fazem questão da ligação carnaval/álcool/sexo com o alto índice de abortos clandestinos. A média nacional é de um milhão de abortos ilegais por ano.

O argumento católico é claro: camisinha é estímulo ou conivência ao sexo promíscuo. Mas fora do campo da moral, sexo é necessidade fisiológica e compõe a base da pirâmide de Maslow junto com a necessidade de saciar a sede e de se alimentar. E atribuir à propaganda da camisinha o incentivo à promiscuidade é o mesmo que dizer que o uso de copos descartáveis incentiva as pessoas a beberem água.

É intrínseco ao pensamento religioso, no entanto, esse tipo de associação equivocada, avaliando pelo viés moral demandas práticas e comportamentos sociais que transcendem o que é apregoado por eles. O grande problema é que a igreja tem ação massiva pelo canal da culpa inclusive nas pessoas que pulam carnaval com sexo. Ou seja, se a restrição se aplicasse de maneira localizada às pessoas que se consideram moralmente superiores e não se envolvem em sexo promíscuo, seriamos um bom rebanho. Mas, de fato, não somos.

A expulsão do padre Luiz Couto é mais uma punição exemplar para quem tenta desafiar o Tribunal da Santa Sé, a exemplo de Leonardo Boff e congregados. Não se trata só do atraso mental e da cegueira aguda para problemas além-eucaristia, mas de um atentado à saúde pública.