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O turbilhão do não-pertencer

13/08/2008

Calhou que tive que ir à aula de ônibus. Pra que fique claro e justo, estava em Barueri a trabalho e estudo em Campinas, onde morei toda minha vida. O causo é que me mudei há 2 anos pra Jundiaí e desde então não via Campinas senão pelos muros da universidade, que é bem afastada do centro, inclusive.

O trajeto nada simples fazia incursões pelos pontos mais críticos do trânsito no país. Saindo de Barueri fui a São Paulo pegar o ônibus. A marginal Tietê me aguentou por quase uma hora.

A marginal, mesmo com caminhões em rodizio

A marginal, mesmo com caminhões em rodízio

Como tinha dormido todo meu sono na marginal, assisti à viagem sóbrio e impaciente. Eis que a certa altura me lembrei que a nova rodoviária já tinha sido inaugurada em substituição à eterna provisória que antes mal-atendia a todos os campineiros e aos passantes.

A ansiedade por conhecê-la, ainda que bem sem graça, me distraiu por parte do caminho. Até que, por fim, cheguei e me assombrei com a beleza da construção e das alterações bem sucedidas no trânsito da região da rodoviária; o quanto a cidade tomava cara de cidadegrande; aquelas luzes e meu estômago vazio e a bexiga cheia, que me recusei a pagar pra esvaziar (faria em lugar apropriado e gratuito).

Além de boquiaberto, fui também acometido por toda sorte de sentimentos provincianos pertinente ao espírito comum das cidades.

E, frio, pouco depois que o acesso começou a se dissipar, pude avaliar os matizes deste sentimento. Um misto efusivo de inveja, nostalgia, ciúmes, posse e impotência. Esse último em particular, que ficou como gostinho amargo no fim, era a resposta para a inquietação: “isso aqui já foi meu”.

E não foi!

E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro. (Clarice Lispector)

Vista do ponto de ônibus

Vista da região da nova rodoviária de Campinas

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3 Comentários leave one →
  1. 14/08/2008 2:47 pm

    Que sensação estranha essa de pertencimento, quando na verdade é completamente aleatório e arbitrário o fato de nascermos (ou vivermos) nessa ou naquela cidade…

    Seja como for, sinto irremediavelmente o mesmo quando vou ao Rio.

  2. Isabel permalink
    15/08/2008 12:14 am

    perfeito o texto:O turbilhão do não- pertencer
    !!!!!!!

  3. 15/08/2008 9:21 pm

    Meu, me deu certa agonia. A história da viagem e a minha identificação total e completa com a situação: viagens sem fim e a terrível sensação de não ser de lugar nenhum.

    Preciso mudar as coisas.

    bjo

    ps: adorei a frase da clarice

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